← Todos os Posts

A filosofia de design de Neri Oxman: editar a natureza, não consumi-la

Neri Oxman falando no TED em 2015, com uma renderização colorida de uma de suas obras projetada atrás dela

O princípio

“De consumir a natureza como um recurso geológico a editá-la como um recurso biológico.” — Neri Oxman1

O princípio de Oxman reformula a relação do designer com a natureza. Durante quase toda a história industrial, o design consumiu a natureza: extraiu minérios, derrubou árvores, perfurou poços de petróleo, moldou matéria-prima em produtos pela força. Oxman propõe a alternativa — projetar com a natureza, usando processos biológicos como métodos de fabricação. Um edifício poderia ser cultivado em vez de montado. Uma estrutura poderia ser produzida por organismos, e não por máquinas. Material e método se tornam inseparáveis porque ambos estão vivos.

A distinção em relação à biomimética importa. A biomimética estuda as formas da natureza e as copia em materiais sintéticos. A abordagem de Oxman é biodesign: recrutar a natureza como colaboradora literal do processo de fabricação. Frank Lloyd Wright perseguiu uma ideia próxima um século antes (a arquitetura orgânica, que emergia do terreno em vez de ser imposta a ele), mas seus materiais permaneciam inertes, enquanto os de Oxman estão vivos. Bichos-da-seda depositam seda sobre uma estrutura de suporte. Bactérias abrem canais dentro de uma máscara mortuária. Quitina e celulose se dissolvem em água e formam estruturas que se biodegradam quando cumprem sua função. Produto e processo são um único organismo.

Contexto

Neri Oxman nasceu em 1976 em Haifa, Israel, filha dos professores de arquitetura Robert e Rivka Oxman. Serviu três anos na Força Aérea israelense, onde chegou a primeiro-tenente, depois começou a estudar medicina na Universidade Hebraica antes de migrar para a arquitetura no Technion e concluir os estudos na Architectural Association, em Londres — a mesma instituição em que Zaha Hadid estudou sob a orientação de Rem Koolhaas.2

No MIT, Oxman fez doutorado em design arquitetônico (2010) e fundou o grupo Mediated Matter no Media Lab. O grupo combinou design computacional, fabricação digital, impressão 3D, ciência dos materiais e biologia sintética para criar estruturas em escalas que iam do microscópico ao arquitetônico. A pesquisa gerou tanto artigos científicos quanto peças de museu — obras que existem ao mesmo tempo como experimento e como arte.2

Em 2006, ainda na pós-graduação, Oxman cunhou o termo “ecologia material” para descrever sua abordagem. Paola Antonelli, curadora do MoMA, definiu a ideia como uma forma de “decifrar as inúmeras lições de design da natureza e traduzi-las digitalmente para aplicações futuras em todas as escalas”.3

Depois de deixar o MIT, Oxman fundou a OXMAN, empresa de design e pesquisa. A declaração de missão: “Somos uma empresa de design que promove a unificação entre a engenharia de design de cima para baixo e o crescimento biológico de baixo para cima, rumo ao fortalecimento mútuo da Natureza e da Humanidade”.4

A obra

Silk Pavilion (2013): bichos-da-seda como fabricantes

Um bicho-da-seda rastejando sobre uma folha de amoreira — o organismo vivo que Oxman recrutou como fabricante do Silk Pavilion

O Silk Pavilion é uma estrutura produzida pela colaboração entre uma máquina CNC e 6.500 bichos-da-seda vivos. A máquina dispôs 26 painéis poligonais de fios de seda como estrutura de suporte. Os bichos-da-seda completaram o restante, migrando para as áreas mais escuras e densas e preenchendo os painéis com a seda que depositavam. Um diagrama do percurso solar determinou onde ficariam as aberturas, deixando que o comportamento natural dos bichos-da-seda criasse a forma.5

O projeto provou que organismos biológicos podem participar da fabricação arquitetônica não como metáfora, mas como construtores literais. Os bichos-da-seda não eram enfeite. Faziam parte do processo de manufatura: produziam um material que a máquina não conseguia produzir e respondiam a condições ambientais (luz, densidade) que a máquina não conseguia perceber.

Aguahoja (2017-2019): arquitetura que se biodegrada

O pavilhão Aguahoja, uma escultura alta de compósitos de biopolímeros que lembra asas de cigarra dobradas, instalada em uma galeria de museu

O Aguahoja é uma plataforma de fabricação à base de água que constrói estruturas a partir da quitosana, uma fibra orgânica solúvel em água derivada da quitina (o material dos exoesqueletos de insetos e das cascas de crustáceos). A escultura central, com cerca de 4,5 metros de altura, lembra “enormes asas de cigarra dobradas”. Cumprida sua função, ela se dissolve na água e volta à terra como composto orgânico.6

O projeto venceu as categorias “Sustainable Design of the Year” e “Design Project of the Year” do Dezeen. Está no acervo permanente do SFMOMA. O Aguahoja defende que um edifício não precisa sobreviver a seus habitantes — que uma estrutura projetada para se biodegradar não é arquitetura menor, e sim outra relação com o tempo. Dieter Rams projetou a estante 606 para durar sessenta e seis anos. Oxman projeta estruturas feitas para desaparecer.

Glass / G3DP (2014): impressão 3D de vidro fundido

Um recipiente opticamente transparente produzido pela impressora 3D G3DP de Oxman, com paredes que exibem as ondulações em camadas do vidro fundido depositado por controle computacional

A equipe de Oxman desenvolveu a primeira impressora 3D de vidro opticamente transparente, em colaboração com o Glass Lab do MIT e o Wyss Institute. A impressora emulava a vidraria tradicional, com forno e câmara de recozimento, mas controlava a deposição por computador. Em certas configurações, o equipamento virava “uma máquina de costura de vidro fundido”.2

O projeto Glass demonstrou que a fabricação digital pode produzir materiais com propriedades (transparência, refração, resistência estrutural) inalcançáveis pela impressão 3D convencional. As esculturas resultantes foram exibidas na Semana de Design de Milão e hoje integram o acervo do MoMA.

O método

O método de Oxman é antidisciplinar. No artigo “Age of Entanglement”, de 2016, publicado no Journal of Design and Science da MIT Press, ela propôs o Ciclo de Krebs da Criatividade, um modelo que conecta quatro domínios em um circuito contínuo:7

A ciência converte informação em conhecimento. A engenharia converte conhecimento em utilidade. O design converte utilidade em comportamento. A arte converte comportamento em novas percepções da informação, reiniciando o ciclo.

O diagrama do Ciclo de Krebs da Criatividade, de Oxman: um anel que liga Ciência, Engenharia, Design e Arte por meio de Informação, Conhecimento, Utilidade e Comportamento

“O conhecimento não pode mais ser atribuído a fronteiras disciplinares nem produzido dentro delas; ele está inteiramente emaranhado”, escreveu ela.7 O grupo Mediated Matter trabalhava nos cruzamentos: o Silk Pavilion é, ao mesmo tempo, experimento de biologia, protótipo de engenharia, objeto de design e instalação de arte. Não pertence a nenhuma disciplina isolada porque o problema que ele resolve (como fazer arquitetura com organismos vivos?) não pertence a nenhuma disciplina isolada.

Na prática, o método é de laboratório: capturar imagens de amostras biológicas ou naturais, desenvolver algoritmos que produzam estruturas semelhantes e criar novos processos de manufatura para materializar o resultado. Cada projeto gera artigos revisados por pares e objetos com qualidade de exposição. Esse resultado duplo é a assinatura do método: o trabalho precisa passar tanto pelo crivo científico quanto pelo estético.

Cadeia de influência

Quem a formou

A Architectural Association deu a Oxman a convicção de que a arquitetura pode operar para além da forma convencional — a mesma convicção que Zaha Hadid desenvolveu na AA com Koolhaas. As duas empurraram a arquitetura para além de seus limites formais, mas em direções diferentes: Hadid pela geometria paramétrica, Oxman pela fabricação biológica. (Influência institucional)2

Paola Antonelli, no MoMA, deu legitimidade institucional ao trabalho de Oxman dentro do mundo do design: curou a exposição de 2020 no museu e defendeu o conceito de “knotty objects” — objetos tão emaranhados entre disciplinas “que já não é possível desemaranhar as disciplinas nem o conhecimento disciplinar que contribuiu para sua criação”.3

Quem ela formou

A ecologia material como campo. O termo que Oxman cunhou em 2006 circula hoje pela arquitetura, pelo design industrial e pela pesquisa em fabricação. O SFMOMA apresentou sua exposição como um trabalho em que ter “a natureza como cliente principal” subverte “o legado arquitetônico de um ambiente construído centrado no ser humano”.8

O argumento a favor do design antidisciplinar. O Ciclo de Krebs da Criatividade deu à comunidade de design um modelo para sustentar que os problemas mais importantes não se resolvem dentro de uma única disciplina, e que o futuro do design está no cruzamento entre biologia, computação, engenharia e arte.7

O fio condutor

Oxman ocupa, nesta série, o ponto em que design e ciência se encontram sem que nenhum dos dois subordine o outro. Jony Ive era obcecado pelo processo de manufatura: como o alumínio é usinado, como o vidro é conformado. Oxman faz a pergunta seguinte: e se o material se fabricasse sozinho? E se o processo de fabricação fosse biológico, e não mecânico? O MacBook unibody de Ive é usinado a partir de um bloco. O Silk Pavilion de Oxman é cultivado por larvas. Os dois se importam com a inseparabilidade entre material e método. Só que os materiais de Ive são inertes. Os de Oxman estão vivos. (Ponte da série)

O que eu levo disso

“O conhecimento não pode mais ser atribuído a fronteiras disciplinares nem produzido dentro delas.” Esse é o argumento a favor do pensamento full-stack. As melhores soluções vêm de quem se recusa a ficar na própria caixinha, de quem entende a biologia (comportamento do usuário), a engenharia (arquitetura de sistemas) e o design (interface) como um único problema emaranhado. O território da infraestrutura do bom gosto aplica o princípio antidisciplinar ao software: bom gosto não é uma camada de design acrescentada por cima da engenharia, e sim uma qualidade emaranhada em cada decisão. O guia de engenharia de design mostra como esse emaranhamento funciona na prática.

FAQ

Qual é a filosofia de design de Neri Oxman?

Oxman pratica a “ecologia material”: projetar com os processos biológicos, e não contra eles. Seu trabalho propõe que edifícios e objetos podem ser cultivados (com organismos atuando como fabricantes) em vez de montados (com máquinas moldando materiais inertes). Ela descreve a virada como passar “de consumir a natureza como um recurso geológico a editá-la como um recurso biológico”. Seu Ciclo de Krebs da Criatividade conecta ciência, engenharia, design e arte em um circuito contínuo.17

O que Neri Oxman criou?

Oxman fundou o grupo Mediated Matter no MIT Media Lab e, mais tarde, a OXMAN. Entre suas obras principais estão o Silk Pavilion (2013, fabricado por 6.500 bichos-da-seda), o Aguahoja (2017-2019, estruturas biodegradáveis feitas de quitina e celulose), a plataforma de impressão 3D Glass (2014, a primeira impressora de vidro opticamente transparente), Wanderers (2015, estruturas vestíveis para exploração interplanetária) e Vespers (máscaras mortuárias com canais biológicos). Seu trabalho integra os acervos do MoMA e do SFMOMA.256

Como a abordagem de Neri Oxman difere da biomimética?

A biomimética estuda as formas da natureza e as copia em materiais sintéticos. A ecologia material de Oxman recruta a natureza como fabricante literal: bichos-da-seda produzem seda, bactérias abrem canais biológicos, estruturas de quitosana se biodegradam por projeto. A diferença está entre copiar o resultado da natureza e colaborar com o processo dela.15

O que designers podem aprender com Neri Oxman?

Os problemas mais importantes vivem no cruzamento entre disciplinas, não dentro delas. Projete para o ciclo de vida inteiro, incluindo o que acontece quando o produto cumpre sua função (o Aguahoja se dissolve). E o material não está separado do método: o design mais forte surge quando material, processo e forma são um único sistema emaranhado.


Fontes


  1. Neri Oxman, “Design at the intersection of technology and biology,” TED Talk, 2015. “De consumir a natureza como um recurso geológico a editá-la como um recurso biológico.” Definição de ecologia material; “um mundo feito de partes”. 

  2. TED, página do palestrante “Neri Oxman”. Biografia: medicina na Universidade Hebraica, Technion, AA de Londres, doutorado no MIT. Também: OXMAN, About. 

  3. MoMA, exposição “Neri Oxman: Material Ecology” (2020). Enquadramento curatorial de Paola Antonelli; “decifrar as lições de design da natureza”. 

  4. OXMAN, About. “Unificação entre a engenharia de design de cima para baixo e o crescimento biológico de baixo para cima, rumo ao fortalecimento mútuo da Natureza e da Humanidade.” 

  5. Dezeen, “Silkworms and robot work together to weave Silk Pavilion” (2013). 6.500 bichos-da-seda, estrutura de suporte feita em CNC, aberturas definidas pelo percurso solar. 

  6. SFMOMA, exposição “Nature x Humanity: Oxman Architects” (2022). Aguahoja no acervo permanente; “a natureza como cliente principal”; “subverte o legado arquitetônico de um ambiente construído centrado no ser humano”. 

  7. Neri Oxman, “Age of Entanglement”, Journal of Design and Science (MIT Press), 13 de janeiro de 2016. Ciclo de Krebs da Criatividade; “o conhecimento não pode mais ser atribuído a fronteiras disciplinares”. 

  8. Ver 6

Artigos relacionados

Design Philosophy: Norman Foster, The Optimist's Machine

Norman Foster built the case that technology is how architecture cares for people: ecological skyscrapers, a glass dome …

8 min de leitura

Design Philosophy: Renzo Piano, Piece by Piece

Renzo Piano calls architecture 'a socially dangerous art' because nobody can look away from a bad building. His answer: …

8 min de leitura

Icons Are a Vocabulary, Not Decoration

Interface icons work like a language with about a dozen words everyone knows. Label by default, one family per product, …

9 min de leitura